Domingo, Fevereiro 05, 2012

Quando ateísmo virou religião? ou o Dogma da não existência do Sagrado

 Tá aí uma questão realmente instigante: quando a descrença tornou-se tão grande a ponto e gerar militantes e proselitistas? Pois, não é estranho que uma negação tenha que se colocar de forma ostensivamente afirmativa, reunindo milhares e milhares de argumentos, os quais, em grande parte, são baseados em ideias já um pouco envelhecidas, em preconceitos e atitudes que normalmente se voltam contra instituições e seus membros, sendo incapazes de tocar na doutrina que constitui a essência de cada religião. Dessa forma, os aqui chamados "ateus panfletários" - não me refiro a todos os ateus -, que estão povoando a internet, agem de forma ironicamente igual àqueles que eles mesmos criticam, fanaticamente.
Como não há imparcialidade, talvez seja melhor definir com a maior precisão possível o que estou criticando: não é a descrença em si, mas o ateísmo que ridiculariza a crença dos outros, agindo de forma preconceituosa, questionando a inteligência e a moral das pessoas religiosas, como se todos fossem burros ou meros carneirinhos seguindo seu pastor. Há quem diga que não se discute religião, mas penso o contrário. Exatamente por não se discutir abertamente a questão religião (note-se que é bem diferente de Igreja ou instituição), é que se multiplica a ignorância tanto de um lado quanto de outro, ou seja, tanto de religiosos quanto de ateus. É exatamente por não se discutir esse tema, que se cria um silêncio abismal que pode levar a extremismos de ambos os lados. Mas, diga-se de passagem, extremismo ateu é a coisa mais bizarra que poderia haver, mas pode ser igualmente destruidor quanto qualquer fundamentalismo, seja ele cristão ou xiita.
Pois, vejamos, ao assumir uma posição de descrença, nega-se várias coisas, das quais as principais sejam provavelmente o sagrado (que pode ser manifestada como Deus, o Absoluto, o que É, o Tao; que pode ser definido em termos positivos/afirmativos como o Criador, o Bem, o Pai; ou em formas mais complexas que só conseguem definir aspectos da divindade pelo que ela não é, por exemplo, não é homem, nem mulher, não teve mãe etc.)  e a existência de uma alma. Ok, você não é obrigado a acreditar em nada. Você é livre para crer ou não crer, mas defender ou tentar disseminar a descrença, não é outra coisa além do que crer no... não crer? Note-se, ao assumir a posição de ateu, a pessoa não tem o que defender, além da sua liberdade de não crer. Aliás, se ela nem acredita tem alma, para que defender a superioridade da descrença em si?
Boa parte do "ateísmo panfletário" é, supostamente, baseado numa crença (impossível fugir dessa palavra que está diretamente relacionada à fé) na ciência, na razão humana - uma visão bem otimista, diga-se de passagem - e defende o livre pensamento e o livre agir, banindo noções como pecado, carma negativo ou qualquer outro regulador sobrenatural da moralidade. O ateu, portanto, acaba adotando uma de três possibilidades de conduta: 1) ele é amoral; 2) ele possui um código de conduta ético bem ou mais ou menos definido (que pode ser bastante variado); ou 3) ele é egocêntrico. Aqueles que possuem um código de conduta, tenderiam a ser humanistas e colocariam de forma mais ou menos respeitosa a tudo o que é humano, inclusive a fé. Dentre estes, são raros os panfletários. Já aos egocêntricos e amorais, não importa o outro. Eles normalmente respeitarão os direitos humanos da forma mais rudimentar possível, considerando aparentemente que a única lei moral válida (se é que é válida) é a de não matar. Mas, afinal, o que tornaria errado o homicídio, quando se está no centro do universo e não há regras? Por que o mais inteligente, o mais esperto não pode matar sem a menor culpa à Raskolnikov, feito um super-homem, pleno senhor de si? Por que o egocêntrico não pode esbanjar seu ser sobre os outros e sufocá-los com suas opiniões e seu narcisismo e a superioridade que obviamente faz dele mesmo uma espécie de deus?
Antigamente acreditava-se que eram os deuses ou Deus que governavam as leis do mundo, então os mitos explicavam a natureza. Cada folha que caia, assim o fazia porque Deus permitia. A Terra era o centro do universo e a humanidade, o centro das atenções do todo poderoso. Por causa dessas explicações míticas, perseguiram cientistas e alguns deles foram até torturados ou mortos. Isso é correto? Não, obviamente. Mas passamos há muito desse tempo. Newton esclareceu boa parte das leis da física do visível e quase completamente o movimento dos planetas. Mas sua teoria ainda era incompleta e Newton era, de fato, cristão devoto, deixando a cargo de Deus algumas irregularidades vistas no sistema solar. Foi o matemático Laplace que conseguiu explicar, a partir das leis de Newton todos os movimentos de planetas, inclusive as irregularidades que antes eram atribuídas à vontade de Deus.
Outra obra que pôs em cheque a interferência divina no simples mundo dos mortais foi A origem das espécies de Charles Darwin, que se colocava contrária ao criacionismo, teoria que diz que o mundo foi criado por Deus tal como ele é. A ideia de que as espécies evoluíam ou eram selecionadas por sua maior adaptabilidade foi o suficiente para muitos sepultarem a regência de Deus sobre a Terra. Agora era possível explicar toda a natureza sem recorrer a Deus. E como um golpe final ao Todo Poderoso, a psicanálise vem a explicar o interior humano como nunca se havia feito antes, expulsando os demônios com suas tentações obscuras.
O que dizer diante disso tudo? Para aquela época, digamos até fins do séc. XIX, todas essas explicações bastavam, declarou-se a morte de Deus, embora digam que o cadáver ainda estava presente, apenas varrido para baixo do tapete, ou seja, ainda mantinha certa influência. Ateísmo virou sinônimo de sensatez. Será?
Na mesma época surgiam doutrinas espiritualistas, o renascimento da bruxaria dava seus primeiros passos, a filosofia oriental era trazida ao Ocidente. Mas o que o Oriente teria a dizer? No caso do Budismo Therevada, a figura de Deus era tão insondável que se tornava praticamente irrelevante para a prática religiosa. Algo parecido pode-se dizer do Brahman hindu, o qual se revela através de milhares de divindades, mas é por si só misterioso. Chegava ao Ocidente, concepções de Deus às quais nenhum "ateu panfletário" ainda ousou enfrentar.
Na virada do século XX, surge a Nova Física baseada na Física Quântica e na Teoria da Relatividade e elas próprias são tão incertas e paradoxais que modificaram profundamente a visão de ver o mundo baseada na Física Clássica. Então, tudo aquilo que era dado como certo, exato e explicado é abalado. A própria noção de matéria se torna um paradoxo e, superficialmente falando, encontramos um mundo que não é outra coisa além de relações continuamente dinâmicas. O exato e o estático deu lugar ao provável. A ciência que havia provido alicerces para uma crença na razão humana, agora se defrontava com uma realidade absurda: grande parte dos átomos são espaços vazios; energia e matéria podem ser convertidas entre si. Além disso, não existe mais um único fenômeno que exista isoladamente. Tudo troca energia entre si.
Mas o que isso tem a ver com Deus ou o sagrado? Chegamos, por ora, ao limite da linguagem e da compreensão humanas. Daqui para frente só se pode falar em uma linguagem poética, repleta de metáforas, paradoxos, metonímias, etc. Completamos um longo ciclo do pensamento que partiu de uma linguagem mítica, das experiências intuitivas, passou por um longo processo de racionalização e convencionalização,  em cujo o ápice a palavra se desliga da coisa a que designa e o homem se desliga de Deus; e voltamos agora ao inefável, à experiência intuitiva que só através de uma poesia ou linguagem sagrada pode ser expressa. Chegamos a uma ciência nova que, como a religião antiga, religa o homem com a natureza.
O pensamento Ocidental precisou de milênios para dar uma volta e retornar ao sagrado mais puro, que é a sua identificação entre o homem e o homem, o homem e a árvore, o homem e o lobo, o homem e a natureza...
A maioria das religiões prega essa ligação, seja através de mistérios, enigmas, milagres ou revelações. Elas pregam uma comunhão entre seus membros e, em vários casos, membros de outras religiões também. Em seu cerne, elas sempre impulsionam o homem para o "bem", pois reconhecem a dependência que cada ser vivente tem do outro.
Não importa o que você acredita, mas prefiro uma comunhão universal, mesmo que ela seja utópica, à mais um sectarismo inócuo.

Nota: Panfletários normalmente agem como se ateus fossem uma minoria, mas o fato é que: ateus não são minoria.

Sábado, Fevereiro 04, 2012

Concurso Oswaldo Montenegro - Flores e Narizes de Palhaço

Tá aí um vídeo muito lindo, espero que apreciem e compartilhem!
Essa é a centésima postagem nesse blog e fico muito feliz que contenha algo tão belo, mesmo que não produzido por mim! Parabéns aos produtores e a todos que participaram! Estou torcendo por vocês!

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

O que há por dentro? - Charles M. Schulz

Já faz um bom tempo que não escrevo, mas em meu último post perguntaram-me se eu estava apaixonado por alguma garota ruiva... Na verdade não, era uma homenagem a Charles M. Schulz, o criador dos quadrinhos do Charlie Brown e toda sua turma. A referência, é claro, é a garotinha ruiva pela qual Charlie Brown é apaixonado.

Pode-se dizer que "os desenhos do Snoopy" como costumava falar na infância eram uma ótima companhia, e continuariam sendo, já que, sob um olhar mais atento ele despertará a curiosidade não apenas das crianças, mas também de pessoas sensíveis de todas as idades.

 - Não consigo nem respirar se meus sapatos
não estão amarrados direito!
As personagens e as relações são construídas de maneira engenhosa, de modo que transitam entre um universo "adulto" e outro completamente infantil. Há, por exemplo, a esperta e interesseira Lucy, bem como seu irmão que filosofa sobre temas complexos agarrado ao seu cobertor. Schroeder persegue firmemente o seu ideal musical, às vezes até tornando-se alheio ao mundo que o cerca. Por fim, o próprio Charlie Brown, que não busca ser o garoto mais popular ou mesmo algum tipo de herói, busca apenas aceitação e seu lugar em meio a outras crianças. Então, desenvolve-se um cenário onde problemas infantis, como ser bom no beisebol ou em empinar pipas, tornam-se cada vez mais pesados sob o signo do fracasso.

As personagens, em especial o próprio Charlie Brown, ganham uma perspectiva interna: há um mundo rico e complexo dentro de cada criança, algo que Schulz não se esqueceu. Suas personagens não vivem meramente uma infância feliz e alienada, elas são conscientes de que algo se passa lá fora e vez ou outra trazem isso à tona, inclusive em suas questões morais e éticas. Mas é seu mundo interno que é mais manifesto e não é um mundo exclusivo de alegrias e brincadeiras. O fracasso de Charlie Brown também lhe é deprimente, o que o leva às onerosas consultas com a psicóloga da turma, Lucy, que o critica e lhe expõe ainda mais seus defeitos, sua inabilidade nos jogos, seu jeito desengonçado, sua tendência a engordar...

Entretanto, em meio aos desconfortos e fracassos, Schulz trás a tona um pensamento positivo: o mundo não acaba quando se perde alguma coisa! Ele continua lá, movimentando-se, o sol brilha, as outras pessoas continuam com suas vidas normalmente... Por outro lado, dentre suas personagens todas são mais ou menos desajustadas e/ou com algum sofrimento latente, alguma perda ou paixão não correspondida... Então por que se deixar abater?

Schulz morreu em 12 de fevereiro de 2000 e é de se pensar se esses pensamentos positivos, ou mostras de resistência, como a frase acima citada de Charlie Brown, não fossem um modo de o autor falar para si mesmo que o mundo não acaba diante de qualquer fracasso e que há aceitação até para os mais desajeitados. Bom, se Schulz não fazia isso, eu faço.


Quinta-feira, Novembro 03, 2011

Das Strichmännchen - O homenzinho de palitos

Es war einmal ein in einem Schulheft gezeichnetes Strichmännchen. Es wurde von einem 8-jährigen Junge geschaffen und lebte durch sein ganzes Leben, das schon genau drei Tage dauerte, ganz lustig und froh in seiner gemütlichen Ecke. Eines Tages ließ der Junge das offene Heft neben dem Computer, und das Strichmännchen konnte das blaue und kalte Licht des Bildschirm ansehen, und das interressierte es viel. Es gab viele Farben und tanzende Figuren und sogar... sogar andere Strichmännchen (und Strichfrauchen), die sprangen, liefen, schwammen... Sie trafen sich miteinander, sprachen miteinander und niemand war allein wie es im Heft des Junges.


Aber das Männchen war allein. Nur die Nummern und die Zeichen des Matheunterrichtes begleitete es, das die Ecke nicht mehr schön fand. Er wollte von der Seite des Heftes springen, den Bildschirm klettern und zusammen mit der anderen Strichmännchen und Strichfrauchen gehen. Es schuf das aber nicht, dann wurde es untröstlich traurig. Wenn es Augen hätte, konnte es weinen...


Plötzlich: Dunkelheit. Das Heft wurde geschlossen. Einsamkeit.


Das Licht kamm noch einmal und es war schon ein anderer Tag, ein anderer langweiliger Matheunterricht. Ehrlich zu sagen war der Junge nicht so begeistert mit Zählen. Deswegen fang er damit an, noch einmal etwas in der Ecke der Seite zu zeichnen. Und, ach, wie wunderbar war noch einmal das Leben! Kurz nach dem Licht kam der Bleistift, um ein schönes Strichfrauchen zu machen. Aber das war nicht alles: zusammen mit ihr kamm... Ein Kuss!


Der kleine Junge war in ein rothaariges Mädchen verliebt und das früher einsame Strichmännchen hatte jetzt eine Freundin!


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Era uma vez um homenzinho de palitos desenhado em um caderno escolar. Ele tinha sido feito por um garoto de oito anos e viveu por sua vida toda, que já durava três dias, feliz e contente em seu confortável cantinho. Um dia, o garoto deixou o caderno aberto ao lado do computador e o homenzinho de palitos pôde fitar a luz azul e fria da tela, e ela o interessou muito. Tinha muitas cores e figuras dançantes e até mesmo... até mesmo outros homenzinhos de palitos (e mulherzinhas de palitos), que pulavam, corriam, nadavam... Eles se encontrava uns com os outros, falavam uns com os outros e ninguém estava sozinho como ele no caderno do menino.

Mas o homenzinho estava só. Apenas os algarismos e sinais da aula de matemática o acompanhavam, e ele não achava mais seu cantinho bonito. Ele queria saltar das páginas do caderno, escalar a tela e ir para junto dos outros homenzinhos e mulherzinhas de palitos. Mas ele não conseguia, então ficou inconsolavelmente triste. Se ele tivesse olhos, poderia chorar...

De repente: escuridão. O caderno tinha sido fechado. Solidão.

A luz veio mais uma vez e era já um outro dia, uma outra aula chata de matemática. Para ser honesto, o garoto não era muito entusiasmado com números. Por causa disso, começou a desenhar mais uma vez no cantinho da página. E, ah, como a vida era mais uma vez maravilhosa! Pouco depois da luz veio o lápis para fazer uma bela mulherzinha de palitos. Mas isso não era tudo: junto com ela veio... um beijo!

O menininho estava apaixonado por uma garotinha ruiva e o antes solitário homenzinho de palitos tinha agora uma namorada!

(originalmente escrito em alemão por mim mesmo)

Quarta-feira, Outubro 12, 2011

A luz entra pelas frestas da janela dourada do meu quarto tingindo tudo de sépia e passado.

Terça-feira, Setembro 20, 2011

The red haired witch - A bruxa ruiva

Nunca fui de escrever textos longos em outras línguas. Mas ontem tentei fazer isso por causa de uma cantora lituana chamada Alina Orlova. A senhorita G. me falou dela em meados de outubro do ano passado, ou seja, há quase um ano e eu tenho ouvido suas músicas todos os dias sem enjoar. Fazia tempo que isso não acontecia. Sábado, voltando de São Paulo e ouvindo-a cantar no meu celular, imaginei escrever uma espécie de livrinho infantil sobre uma bruxa ruiva cantora. Tinha visto uma exposição do Saul Steinberg e estava cheio de ideias na cabeça. A ideia virou isso aí, escrevi em inglês na esperança de ela poder lê-lo um dia... Perdoem-me, mas nunca estudei inglês formalmente, então deve haver alguns errinhos aqui e ali... mas não me envergonho deles.



The red haired witch 
a tale to Alina Orlova, who have enchanted me without know it. 

Hey, maybe you should not trust me. At least not completely, because I am a thief. A liar and a thief. But I could also be a storyteller, and that is what I want to do here. Only tell you a story. Although I am a real lier, it is all true. 

There was once a red haired witch. But she was not the kind of scaring witch, that makes potions or eats children. At least I believe not. She could do her own enchantments without salamander’s eyes or spider’s legs. I could imagine that she looks like a very normal person - and is also beautiful -, except of her talents, which she sometimes used to show to other people or kept, maybe the most powerful ones, all in secret. I could also imagine that she goes every day, just like a normal person, to buy some food for her own. I am completely sure, that she not even had a cauldron. What she used to make her witchcraft was only a piano and her voice. Because she had a very beautiful voice... More than beautiful, I should have said... 

Once I found some of her books - but I didn’t know what kind of book they were -, and I stole these books. I simply stole and brought them to home. However, at midnight, one of them began to sing - obviously, books of witches are also enchanted books - and I tried to listen to very attentively. I must confess, I could not understand every word spoken, but it looked like some mermaid’s song, that made me stay entirely still, quiet, almost without breath.That should be the price for stealing some kind of books and, at the next night, the other book sang, and I listen to more attentively than the last night. 

Also I wished to learn more about the books. One was named Laukinis Šuo Dingo and I tried to translate these words. Until now I am not so sure, if it is about some wild dog. Well, a wild dog for a thief is something that could bring all the kinds of adventures for a old storyteller, that is not precisely what I am. On the other I could read Mutabor, which means... I don’t know, maybe something related to changes... or not... 

After all these things, the only thing I know is that I must be more careful when I steal books. These have enchanted me and I hear them night after night, day after day, all the time with the same feeling. Without understand a single word, yet touched almost to tears... 

I’m so sorry for steal your books, this story is some kind of payment for making my days a little better, a little more beautiful... I hope this story could make you, at least for a moment, a little happier. Maybe smile. 

Thanks for don’t hide your talent.

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A bruxa ruiva
um conto para Alina Orlova, que me encantou sem o saber.

Ei! Talvez você não deva confiar em mim. Pelo menos não completamente, porque eu sou um ladrão! Um mentiroso e um ladrão. Mas eu também posso ser um contador de histórias e é isso o que eu quero fazer aqui. Somente lhe contar uma história. Embora, eu seja realmente um mentiroso, isso é tudo verdade.

Era uma vez uma bruxa ruiva. Mas ela não era daquele tipo de bruxa assustadora, que faz poções ou come crianças. Pelo menos, eu acho que não. Ela podia fazer seus próprios encantamentos sem olhos de salamandras ou pernas de aranha. Eu poderia imaginar que ela se pareceria como uma pessoa bem normal - e também bonita -, exceto por seus talentos, que ela, às vezes, costumava mostrar para outras pessoas ou mantinha, talvez os mais poderosos, todos em segredo. Eu poderia também imaginar que ela vai todos os dias, bem como uma pessoa normal, comprar alguma comida para ela mesma. Eu estou completamente certo, que ela nem mesmo tem um caldeirão. O que ela usava para fazer suas bruxarias era somente um piano e sua voz. Porque ela tinha uma voz muito bonita... Mais que bonita, eu deveria ter dito...

Uma vez eu achei alguns de seus livros - mas eu não sabia que tipo de livros eles eram -, e roubei esses livros. Eu simplesmente roubei e os trouxe para casa. Entretanto, à meia noite, um deles começou a cantar - obviamente, livros de bruxas são também livros encantados - e eu tentei ouvir tudo atentamente. Eu devo confessar que não podia entender todas as palavras ditas, mas parecia uma canção de sereia, que me fez ficar completamente parado, quieto, quase sem respirar. Esse deve ser o preço por roubar esse tipo de livro e, na noite seguinte, o outro livro cantou, e eu ouvi mais atentamente que na noite anterior.

Então eu quis saber mais sobre os livros. Um chamava Laukinis Šuo Dingo e eu tentei traduzir essas palavras. Até agora eu não estou certo, se esse livro é sobre algum cachorro selvagem. Bem, um cachorro selvagem para um ladrão é algo que pode levar a todo tipo de aventuras para um velho contador de histórias, que não é precisamente o que eu sou. No outro, eu podia ler Mutabor, que significa... Eu não sei, talvez algo a ver com mudanças... ou não... 

Após todas essas coisas, a única coisa que eu sei é que eu devo ser mais cuidadoso quando eu roubo livros. Esses me encantaram e eu os ouço noite após noite, dia após dia, todo o tempo com o mesmo sentimento. Sem entender uma única palavra, porém tocado quase até às lágrimas... 

Sinto muito por roubar seus livros, essa história é algum tipo de pagamento por fazer meus dias um pouco melhores, um pouco mais belos... Eu espero que essa história possa fazê-la, pelo menos por um momento, um pouco mais feliz. Talvez sorrir. 

Obrigado por não esconder seu talento.

Domingo, Setembro 18, 2011

Dom Casmurro

Isso é apenas um relato pessoal da minha leitura de Dom Casmurro. Vestibulandos, corram daqui, ou leiam até o fim, porque ler não dói.

Quem me conhece pessoalmente e já trocou ideias sobre literatura comigo, sabe que o grande Machado de Assis nunca foi meu ídolo. Pelo contrário, vejo sua obra como supervalorizada ao extremo, um extremismo escolar que em vez de levar o leitor à reflexão atua de modo mais emburrecedor do crítico, propriamente dito, e é sempre necessário pensar e repensar nossa tradição.

Dom Casmurro é tido talvez por grande parte dos leitores como obra máxima de Machado de Assis, quando não da literatura brasileira. A história de amor que se desenrola desde a infância até a idade adulta com uma concretização (leia-se casamento) sem maiores percalços é marcada pela "grande" dúvida: se Capitu traiu ou não traiu Bentinho.

Creio que minha tendência a apreciar mais o que tende ao épico do que a introspecção tenha coberto as páginas de Dom Casmurro com algum tipo de véu, que possa ter-me impedido de ver a beleza de todo o conjunto. É claro que é uma obra bem escrita, com frases que poderiam ser retiradas com certa violência do contexto do livro para se tornarem aforismos ou coisa parecida (algo que infelizmente acontece).

Mas não sei... creio não ser tão burro para não ter entendido a obra, mas, pelo menos para mim, Machado é melhor contista do que romancista. Seus textos longos frequentemente tornam-se apenas enfadonhos. Não li toda sua obra, nem sou especialista no autor, mas foi a exata impressão que tive ao ler Quincas Borba. Salvo alguns lances de pura genialidade em sua - sei lá porque chamam assim - trilogia realista, que inclui Memórias Póstumas, ele não se dá bem com textos mais longos. Daí talvez os capítulos curtos, sem lá muito fôlego para mais.

O que porém a "crítica escolar" valoriza no autor, além de seu estilo elegante e impecável, é o modo como ele traça o perfil das personagens, com suas sutilezas e profundidade psicológica. Tendo isso em vista, é uma grande falha dessa crítica não notar que a obra em questão é apenas uma análise de personalidade, não a história de uma relação entre um menino e uma menina que crescem e acabam se casando. Para mim parece tão óbvio que o livro não é nada além do que sobre a própria personagem Bentinho - o próprio nome do livro já diz isso! Esqueçamos os "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" da garotinha, ou os trejeitos adquiridos por Ezequiel, que lembravam o amigo morto. O mundo é filtrado pelos olhos envelhecidos - e que àquela altura já o viam de maneira um tanto acinzentada - do narrador.

Em minha modesta opinião, o tema do livro é o remorso de Bentinho. Ele é um documento escrito para tentar justificar os erros do passado e do presente. O narrador é o grande traidor, pois foi ele quem deu as costas para sua amada e, depois de sua morte, ainda assume alguns casos passageiros, damas que o visitavam... Talvez seja o remorso misturado à ideia de ter sido desonrado que o leve a pensar no suicídio. Bentinho é egoísta e possui um lado mau, que quase o leva a envenenar o filho.

Enfim, a questão de se duvidar do narrador já foi colocada por outros críticos com muito mais experiência e respaldo do que eu, mas não sei se esse tema do remorso já foi levantado, ou algo nesses termos.

Agora, pergunta-me o leitor se eu recomendo a leitura? Sim. Leitura obrigatória para qualquer estudante de letras ou mesmo para qualquer brasileiro. É necessário conhecer sua cultura e sua literatura. Fora isso, é um livro que pode se ler rápido, não é tão cansativo mas... convenhamos, é apenas um drama doméstico de alguém insignificante e que não faz muito mais do que falar sobre si mesmo. Para mim não é a obra máxima de nossa literatura, nem o lado que mais me interessa de Machado de Assis.

OBS: Antes das críticas, isso é apenas uma opinião pessoal, não um trabalho acadêmico... opinião, cada um tem a sua, ok?