domingo, setembro 18, 2011

Dom Casmurro

Isso é apenas um relato pessoal da minha leitura de Dom Casmurro. Vestibulandos, corram daqui, ou leiam até o fim, porque ler não dói.

Quem me conhece pessoalmente e já trocou ideias sobre literatura comigo, sabe que o grande Machado de Assis nunca foi meu ídolo. Pelo contrário, vejo sua obra como supervalorizada ao extremo, um extremismo escolar que em vez de levar o leitor à reflexão atua de modo mais emburrecedor do crítico, propriamente dito, e é sempre necessário pensar e repensar nossa tradição.

Dom Casmurro é tido talvez por grande parte dos leitores como obra máxima de Machado de Assis, quando não da literatura brasileira. A história de amor que se desenrola desde a infância até a idade adulta com uma concretização (leia-se casamento) sem maiores percalços é marcada pela "grande" dúvida: se Capitu traiu ou não traiu Bentinho.

Creio que minha tendência a apreciar mais o que tende ao épico do que a introspecção tenha coberto as páginas de Dom Casmurro com algum tipo de véu, que possa ter-me impedido de ver a beleza de todo o conjunto. É claro que é uma obra bem escrita, com frases que poderiam ser retiradas com certa violência do contexto do livro para se tornarem aforismos ou coisa parecida (algo que infelizmente acontece).

Mas não sei... creio não ser tão burro para não ter entendido a obra, mas, pelo menos para mim, Machado é melhor contista do que romancista. Seus textos longos frequentemente tornam-se apenas enfadonhos. Não li toda sua obra, nem sou especialista no autor, mas foi a exata impressão que tive ao ler Quincas Borba. Salvo alguns lances de pura genialidade em sua - sei lá porque chamam assim - trilogia realista, que inclui Memórias Póstumas, ele não se dá bem com textos mais longos. Daí talvez os capítulos curtos, sem lá muito fôlego para mais.

O que porém a "crítica escolar" valoriza no autor, além de seu estilo elegante e impecável, é o modo como ele traça o perfil das personagens, com suas sutilezas e profundidade psicológica. Tendo isso em vista, é uma grande falha dessa crítica não notar que a obra em questão é apenas uma análise de personalidade, não a história de uma relação entre um menino e uma menina que crescem e acabam se casando. Para mim parece tão óbvio que o livro não é nada além do que sobre a própria personagem Bentinho - o próprio nome do livro já diz isso! Esqueçamos os "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" da garotinha, ou os trejeitos adquiridos por Ezequiel, que lembravam o amigo morto. O mundo é filtrado pelos olhos envelhecidos - e que àquela altura já o viam de maneira um tanto acinzentada - do narrador.

Em minha modesta opinião, o tema do livro é o remorso de Bentinho. Ele é um documento escrito para tentar justificar os erros do passado e do presente. O narrador é o grande traidor, pois foi ele quem deu as costas para sua amada e, depois de sua morte, ainda assume alguns casos passageiros, damas que o visitavam... Talvez seja o remorso misturado à ideia de ter sido desonrado que o leve a pensar no suicídio. Bentinho é egoísta e possui um lado mau, que quase o leva a envenenar o filho.

Enfim, a questão de se duvidar do narrador já foi colocada por outros críticos com muito mais experiência e respaldo do que eu, mas não sei se esse tema do remorso já foi levantado, ou algo nesses termos.

Agora, pergunta-me o leitor se eu recomendo a leitura? Sim. Leitura obrigatória para qualquer estudante de letras ou mesmo para qualquer brasileiro. É necessário conhecer sua cultura e sua literatura. Fora isso, é um livro que pode se ler rápido, não é tão cansativo mas... convenhamos, é apenas um drama doméstico de alguém insignificante e que não faz muito mais do que falar sobre si mesmo. Para mim não é a obra máxima de nossa literatura, nem o lado que mais me interessa de Machado de Assis.

OBS: Antes das críticas, isso é apenas uma opinião pessoal, não um trabalho acadêmico... opinião, cada um tem a sua, ok?

sábado, setembro 03, 2011

Jogo de damas


Algumas coisas se fazem em pares. Como jogar damas. Inicia a partida, um ganha outro perde. Tem coisas em que os dois ganham, outras, em que os dois perdem. Maus perdedores destroem tudo, jogam todas as memórias no lixo, atacam o adversário... Não sei se ganhei ou se perdi, só sei que vou guardar as lembranças. Numa caixinha ou na cabeça, como sempre. Direito meu. Para que me desfazer, assim, completamente, de meu antigo parceiro? Respeite-me o próximo jogador.

terça-feira, agosto 23, 2011

Humor


Uma ponta de beleza
bem no meio da feiúra
que é criada pelo homem.

Piada da Natureza.

sábado, abril 30, 2011

O caminho...

Então... ele pelo menos tinha uma pedra no meio do caminho. Ou dentro do sapato, talvez. De qualquer forma, sortuda aquela pedra. Encontrou um cara bacana, podia ter conversado. E olha que ele não ficou nem um pouco alheio a ela. Dona pedra, tinha algo de sedutora para jamais ser esquecida. Estar ali, no meio do caminho, talvez tenha tornado as coisas mais heróicas, suponho. Será que eles conversaram? Deviam. Afinal, qual o mal em se conversar com uma pedra? Tem gente que conversa com santo, ou com lápides, mas jamais conversaria com uma pedra sem forma. Será que era grande? Devia ser, para ser tão notada.

Talvez errada estivesse a estrada, ou o caminho. Por que não desviou da pedra? Acho que a pedra e o caminho tinham algo em comum, como almas gêmeas que não podem ser separadas. Romântico isso: a pedra e o caminho, unidos eternamente. Comove mais que amor humano com suas idas e vindas que vão terminar num final duvidosamente feliz, que a gente mais inveja do que acredita. Mas, como diria o Professor, o final feliz satisfaz, é o que a gente anseia de verdade. O nosso final feliz.

E pensar no poeta... poxa! Um triângulo amoroso? O caminho e a pedra já estavam lá, daí vem o intrometido. Mas a pedra é fiel! Não se afastou. E se os três, de repente, conversaram? O que teriam dito?

No meu caminho não tem pedra nenhuma. Chato... mal dá pra bancar o herói e pular por cima da pedra gritando bem alto, o grito de um vencedor, ou de um animal...

O caminho só vai e cansa. Daí a gente senta no meio e vê se alguma pedra passa por nós.

Nós? Que nós?

quarta-feira, abril 20, 2011

Solidão

Sentar-se só. Nesse banco, que já foi ocupado por milhares de corpos desconhecidos, que conversavam alegremente, abraçavam-se, beijavam-se, ou apenas viam a vida passar. Devagar, como sempre. O banco que servia para o descanso das pernas ou para acalmar do coração.

Um corpo só. É apenas o que resta. O que resta é a comunhão com as árvores e os pássaros, que olharão e se deixarão tocar sem sentimentos que venham a comprimir o coração.

E tocar a terra, com os pés descalços, na mera busca de um toque que seja vivo, que tenha alma. Um corpo imenso que acolhe e abraça, que dará o último abraço, o beijo amante, a jura de amor eterno e a promessa de não abandono, jamais!

E o vento trás aqui os cheiros de quem já se sentou ao meu lado, que se distinguem entre todos os milhares de cheiros de todos os milhares de corpos que por aqui já passaram. Memória.

E a sombra de uma árvore a se agitar suavemente, ignorando a tristeza e explodindo em cor, em verde, em luz. Ferindo com tanta beleza em uma explosão de flores, que se desprendem com o vento e vem a roçar a pele...

Ignorante, a natureza é bela. Banha-se de sol. Luz que fere os olhos mas não atinge o coração. Derruba a consciência em lágrimas que não se secam, apenas transbordam... transbordam até que transforme a dor em cansaço, o ódio em cansaço, a esperança em cansaço, o medo em cansaço, o amor, a alegria, a vida, os sonhos... em cansaço.

Só. Só nos sobra o cansaço. A falta de vontade de sonhar, de crescer, de viver, de ser.


Até que surge novamente, aquele perfume estranho e familiar. A beleza estrangeira que nunca partiu do coração exilado. Daquele que busca sua terra e sua origem. A saudade de um território estranho, quase apagado na memória, o mundo dos sonhos, onde a comida é doce e os abraços infinitos, há apenas sorrisos e nenhuma dor.

O perfume acompanhado de uma nova forma. Acalmando a mente e toda a dor que possa haver em um coração. Essa dor que se converte em silêncio e que só acumula, não encontrando escape nem em um grito.
E o grito absurdo que não se ouve, só gela a alma, entorpece os sentidos e conduz a vigília. Vigília eterna, que virá a corroer por dentro tudo o que é bondade, só deixando o pesadelo e, enfim, o medo de dormir, apesar do cansaço.

A necessidade de estar alerta a cada sentimento novo e sem nome, que brotar de um coração. Tentar compreendê-los. Manter a mente alerta para o que o corpo já não sente.

Tudo isso sozinho, em silêncio. Só.

domingo, março 27, 2011

O instrumento perfeito



Era uma vez um velho construtor de instrumentos musicais, conhecido em sua região como o melhor de todos no ofício. Fazia com sua arte toda a sorte de instrumentos, desde o mais simples tambor de pele esticada, até os sofisticados e complexos teclados e todo o tipo de mecanismo que se interpunha entre o homem e a produção do som. Certa noite, enquanto dormia, veio-lhe um anjo, em sonho, e disse:

- Chegou ao céu a sua fama: de que és, entre os homens, o mais habilidoso construtor de instrumentos musicais.

Impressionado com o que ouvia, o velho não respondeu, antes deixou que sua modéstia e timidez aflorassem e encolheu-se, mesmo em sonho, diante da figura celestial. Entendendo, porém, o que se passava no coração do velho, o anjo não se zangou. Apenas disse:

- Sei que me temes e não és orgulhoso. Mas tenho um pedido do Pai, que só as mais habilidosas mãos podem realizar. Amanhã voltarei e me darás resposta, se aceitas ou não o trabalho.

Assim desapareceu o anjo e o velho pode voltar ao seu sono tranquilo.

Na manhã seguinte, lembrando-se do que lhe acontecera em sonho, o velho foi buscar o conselho de um sábio. Encontrou-o sentado debaixo de uma árvore, deixando-se acariciar pelo vento suave e se deleitando com o canto dos pássaros. Aproximando-se devagar, disse o velho, baixinho:

- Com licença senhor.

- Pois não! - respondeu o sábio.

- Disseram-me, há tempos, que és o detentor da mais vasta sabedoria entre os homens – disse o velho.

- Nem tanto – respondeu o sábio. - Sabes como funcionam a mente e, principalmente, a língua das pessoas. Mas se queres minha ajuda, não tenha receio em pedi-la. Está uma manhã agradável e nada me perturbará.

Então, o velho contou o que havia sonhado e a proposta que o anjo lhe deixara. Depois de ouvir cada palavra com bastante atenção, o sábio respondeu:

- Aceitas a proposta se ao teu ofício ela condiz e não temas qualquer castigo, caso venhas a falhar, pois Deus também é misericordioso.

Ouvindo isso, o velho se alegrou e voltou para a casa. Mas, ao chegar a noite, notou suas mãos trêmulas e a vista já bastante cansada. Ao se deitar, temeu a volta do anjo, que, de fato, voltou – pois os anjos não são lá muito dados a contar mentiras ou a descumprir promessas. E disse o anjo:

Então, aceitas o pedido de nosso Pai?

- Sim! - respondeu o velho com firmeza e, neste momento, seu coração se encheu de alegria.

- Pois bem! - disse o anjo. - Assim será o instrumento que deverás construir: será feito de madeira, com cordas esticadas sobre um eixo, que dividirá o instrumento em duas partes iguais; deverá soar mais baixo que a voz humana, porque esta é o instrumento perfeito criado por Deus; ser leve e fácil de carregar; não será nem muito grande, nem muito pequeno, mas sua medida se adaptará ao corpo do homem; terá a forma do infinito e um buraco sobre o tampo, para que possa bem soar; e o buraco será perfeito e circular; e aquele que olhar para dentro do círculo encontrará mistério e escuridão. Desperte agora para que não esqueças do que foi dito. Ainda mais uma vez eu voltarei.

Assim, desapareceu o anjo e o velho acordou. Anotou em um papel tudo o que pôde lembrar e, como ainda era noite, voltou a dormir, intrigado e aflito com a forma do infinito e o mistério a ser contemplado.

No dia seguinte, o velho procurou, mais uma vez, o sábio e perguntou-lhe sobre a forma do infinito. O sábio, também intrigado com a pergunta, refletiu sobre a imensidão da Terra, dos astros e, por fim, de Deus. Depois voltou-se para as coisas pequenas: o homem, o burro, o cachorro, o rato, o grilo, a formiga, o grão de areia e imaginou ainda coisas menores, as quais não sabia nomear. Então perguntou ao velho:

- Apenas isso te disse o anjo?

- Sim – respondeu o velho.

Então, o sábio, que até agora só olhara para fora, calou-se e fechou os olhos, procurando algo dentro de si mesmo que lhe mostrasse o infinito, até que ficou confuso se o encontraria no vazio ou em todas as coisas. Disse tudo isso ao velho e concluiu:

- Como vês, há também limites em minha sabedoria.

Nesse dia, o artesão voltou para casa angustiado, temendo a chegada da noite. Mas ela chegou. Então, teve medo de adormecer e ficou, por horas, contemplando o infinito céu noturno, até que a fadiga o derrotou e ele, finalmente, dormiu.

Mais uma vez veio o anjo e disse:

- Não se assuste com a tarefa, bem serás capaz de realizá-la. Nunca se esqueça do eixo central e da simetria do instrumento. Pois continuo com as instruções: três será o número regente, para que não esqueças da Santíssima Trindade, da Sagrada Família, dos três reinos que as almas habitam; e, não esqueças, também, de que três foram os crucificados e não havia só perfeição entre eles. Três e três se encontrarão sobre o eixo e três cordas haverão de cada lado. O braço será longo, com quatro vezes três casas ao fácil alcance dos dedos, e outras tantas a penetrar o infinito. Três oitavas alcançarão essas casas, antes de adentrarem o infinito e em simetria serão colocadas as cravelhas, três e três. Em três semanas construirás o instrumento, guardando todas as suas medidas e gabaritos; e, três dias depois de pronto, se tiveres sucesso, um enviado de Deus virá buscá-lo, para quem darás o instrumento de presente.

O anjo desapareceu e o velho despertou, anotou tudo o que pôde lembrar e começou a desenhar, sobre o papel, como deveria ser o instrumento, até que, vencido pelo cansaço do trabalho e da idade, adormeceu sobre a mesa.

No outro dia, só despertou quando ouviu batidas ansiosas na porta de sua casa. Era o sábio, com seu jeito típico, alegre e bonachão. Trazia uma folha de papel com um desenho e disse:

- Procurei em livros antigos algo que pudesse me dar uma ideia sobre o infinito e acabei encontrando esse sinal.

O velho, então, correu os olhos sobre uma fina linha que corria, dava uma volta e cruzava consigo mesma, voltando ao princípio, como um laço sem início, nem fim. Surpreendeu-se, mais uma vez, ao comparar o desenho trazido pelo sábio com os rascunhos que fizera durante a noite, pois havia semelhança. Daí teve certeza de como seria o instrumento.

Conforme disse o anjo, três semanas o velho gastou na construção e, depois de três dias, apareceu em sua oficina um jovem dizendo que procurava uma nova forma de alegrar a Deus, aos homens e a todas as criaturas. Assim, entregou-lhe o velho o instrumento perfeito, que o anjo lhe mandara fazer. E o velho disse:

- Meu jovem, com esse instrumento, não irás somente alegrar a Deus e suas criaturas, mas poderá, também, contemplar seus mistérios e sua infinitude.

O jovem tomou o instrumento, bastante surpreso por recebê-lo de presente, e saiu pelo mundo encantando a todos com seu talento e a maravilha que trazia em mãos.

Por todo lugar onde passou, os mais engenhosos construtores de instrumentos musicais copiaram as formas perfeitas e misteriosas daquela obra de arte, de modo que, embora muitas dessas cópias não fossem tão belas, nem soassem tão bem, o instrumento perfeito acabou se tornando bastante popular.

O velho que pela primeira vez o construíra não enriqueceu e seu nome não é mais hoje lembrado. Porém, ele encontrou as mais profundas paz e alegria por sua vida e, depois, por toda a eternidade.



quinta-feira, março 24, 2011

Fé

Thomaskirche - Leipzig

A última vez que fui à Igreja foi uma experiência realmente estranha. Já havia estado naquela igreja antes para visitar, conhecer o lugar, tirar fotos, etc. Agora eu estava ali para o serviço religioso e uma estranha sensação tomava conta de mim. Será que eu realmente não acreditava mais em tudo aquilo? Ou só estaria cansado, ansioso, alerta demais à língua estrangeira...

A música era maravilhosa. O órgão, o cantor, o violino, tudo ecoando majestosamente sob aquele teto cheio de nervuras. A igreja estranhamente irregular e assimétrica era bonita. E continuou bonita mesmo quando eu notei que os vitrais não tinham temas religiosos: eram Bach e Mendelssohn que estavam ali.

Por qualquer motivo que fosse, talvez por respeito, agradeci por estar ali. Agradeci por minha família, pelos novos amigos que estava fazendo e por todas as chances que estava tendo, que, eu sei, são raras.

Agradeci. Mas era tão diferente dos outros que estavam ali...

sexta-feira, março 18, 2011

E se eu me apaixonasse por você?

Leipzig
Estive pensando... E se eu me apaixonasse por você? Imagine como seria! Se eu compusesse poemas e canções? Inventasse um mundo mágico e a convidasse para ser a rainha! E se eu tentasse tornar seus dias mais belos, forjando nossa própria beleza ou lhe mostrando a beleza do mundo? E se eu fosse um descanso em seus dias tão longos. E se eu fosse a fuga dos dias tão cinzas, das janelas, todas iguais, com cortinas e grades, que cerram o olhar e afastam o medo? Eu seria seu guardião e a protegeria de todo o mal? Talvez não. Mas seria aquele que a faria sorrir depois da queda e a carregaria caso se machucasse.

E se um dia... Você se apaixonasse por mim? Como seriam nossos dias? Repletos de sorrisos? Uma alegria que ultrapassasse os lábios e fosse encontrar nos olhos um brilho que significasse mais que qualquer palavra! E uma lágrima ecoasse mais alta que o riso e nossos rostos molhados, de uma felicidade salgada e tão saborosa que chegaríamos a temer que fosse demais para nós!

E nós só precisaríamos nos apaixonar...

domingo, fevereiro 27, 2011

A fulana e o Led Zeppelin


- Não sei por que raios, essa mulher agora resolveu de comprar uma escada para o céu! Logo ela que antes se gabava de sua racionalidade e, portanto, descrença no divino; buscava por todos os meios uma forma de alcançar o paraíso! Decerto estava era com vontade de ralhar com Deus, por qualquer perfeição excessiva ou imperfeição que tivesse encontrado no Criador ou em sua obra. Então diria: "Ora, Criador, você é muito certinho! Tem mais é que curtir a vida! Afinal, não foi pra isso que você inventou o pecado?" Teria calafrios com essa blasfêmia se lá fosse muito apegado ao cristianismo. Mas, de fato, duvido que ela faria perguntas de caráter mais filosófico ou racional, como muitas vezes gostava de fazer por aí. Não que fosse exibicionista do tipo arrogante que gosta de crescer para cima dos outros. Apenas gostava de manter a conversa em um nível elevado, que frequentemente, porém, tornava-se apenas cansativo, sem objetivo e constrangedor. Ah, mas essa escada! Nem parecia algo razoável e que pudesse existir de verdade. Ela procurou por todos os lugares, sempre perguntando mais e mais, a despeito do que pudessem dizer as placas penduradas nas paredes. Palavras que podem enganar. Quem dera fosse tão poderosa quanto acreditava ser e com uma única palavra conseguisse o que quisesse. Mas não era assim...

Todavia, um dia ela conseguiu encontrar e comprar a tal escada. Depois passou dias se preparando para subir, afinal de contas a escada a levaria a algum lugar especial, supostamente. Estava toda preparada e até tinha colocado as suas jóias, que não eram de ouro de verdade, mas isso não importava. Elas brilhavam! Ela me olhou nos olhos e estávamos sem palavras.Seria aquilo uma despedida? Eu sabia que haviam dois caminhos e que se algo desse errado poderíamos escolher outro durante o percurso. Ela, contudo, não devia pensar assim. Sem dizer nada, olhou para cima e começou a subir.

Um apito soou. Lá no fim da rua virava um flautista, um cara de uma outra banda. Seria ele que nos levaria para a razão? Talvez. O fato de não haver um bando de ratos o seguindo me pareceu promissor e a música que saía de sua flauta prateada era, de fato, encantadora. "Você pode ouvir a música?" - perguntei sem esperar resposta. E ela parou. Sim, ela podia ouvir; mas a escada era tão brilhante e uma luz vinha de lá de cima. Não subiu mais nem um degrau. Também não desceu. Ficou parada e eu esperei por um tempo. O flautista já começava a se afastar e, no meio de tudo aquilo, segui-lo era a única coisa que fazia sentido. E foi o que fiz.

Agora não sei mais se ela realmente chegou a ouvir a música...

NOTA: Texto inspirado pela letra da música.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

História, histórias

Quedlinburg
Andando por essas ruas mais velhas que meu país, tão carregadas de história e de histórias, é cada vez mais difícil não se sentir um tanto esmagado pelo tempo. Cada centímetro desse lugar tem pelo menos umas quinze histórias para contar: de desespero, tristeza, revolta, dor, ódio e até de esperança! Tudo isso, de uma forma ou de outra parece cair sobre os ombros do povo, que, inconscientemente, não anda; apenas marcha. Firmes e decididos como soldados, aparentemente, oferecendo o seu melhor, sem preguiça e sem descanso... sem preguiça e sem descanso.

Os sorrisos existem. Raros, nublados, às vezes indecifráveis. Mas existem. Até para nós, os estranhos.

Estranhos a esse mundo estrangeiro, que nos recebe e nos intimida. Onde escreveremos algumas anedotas particulares, bem menores que um ponto no longo texto dessa história, que se entrelaça até nas asas dos corvos, sempre vigilantes, atentos a nossa queda, enquanto só podemos vê-los voar.

E de pensar que meus heróis andaram por essas ruas, tocaram essas paredes, preencheram esses espaços, agora vazios. E pensar que meus heróis... eram apenas humanos, que sentiam fome, sede, reclamavam da vida e, ainda assim, enchiam o mundo com as coisas mais belas de que já se ouviu falar! E eles eram apenas humanos!

Mas a história que se respira aqui não é a desse tempo. É bem mais nova, aliás. Mas é uma história de que as pessoas se lembram. Um mundo do qual nós só ouvimos falar, carregado de medos e vontades, mais desejos que necessidades; desconfiança; segredos. O pensamento escondido, dizível, mas não dito.

E qual é a minha história diante disso tudo. Minha história insignificante de desencontros e saudades. Lugares que lembram pessoas, que pertenceriam mais àqueles lugares do que eu. E ser soterrado pela própria memória, dos sorrisos e dos beijos não dados, da despedida que nunca existiu, da ânsia por um reencontro, de toda a mágoa contida e que nunca terá vazão. O grito de ódio, transformado em um brilho triste do olhar, a lágrima que não sai, não lava o rosto nem a alma. E todos os sorrisos, irrefletidos e insinceros. Alegria insistente e desonesta, apenas necessária para uma mísera sobrevivência.

E todo esse ruído? O falar demais com pouco a dizer. A força incessante que me tira dentro de mim. O paradoxo do medo e da necessidade de se estar sozinho. Nunca conseguir estar com quem se quer estar.

Silêncio, porém, insuportável.

A história dos outros e a minha história são ambas incompletas.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Um cabeça de tatu

Um cabeça de tatu
Escondido no buraco.
Ninguém vê quando ele chora,
Ninguém vê quando ele ri.

Um cabeça de tatu
Escondido no buraco.
Ninguém sabe o que ele sente,
Ninguém sabe o que ele pensa.

Um cabeça de tatu
Escondido no buraco,
Ninguém sabe se ele é triste.
Ninguém sabe se ele existe!

Ninguém sabe se ele existe.
Mas ora não é por isso.
Não é por isso,
Que ele é triste.

sexta-feira, novembro 12, 2010

À Gentil Cavaleira

Gentil Cavaleira,
Diz por onde anda,
que monstros enfrenta
em dias tão quentes.

Conta-me o que a leva
Por estradas ermas,
Jamais conhecidas
por nenhum menestrel...

Diz-me se em sua mente
lembrança carrega
daquele que sempre
em você se alegra.

Pacientemente
espera que volte
e conte seus feitos
heróicos, travessos...

E em um coração
fará monumento
à bela senhora,
Gentil Cavaleira.

escrito em 17 out. 2010

sábado, outubro 30, 2010

Se os tubarões fossem homens

Bertolt Brecht

– Se os tubarões fossem homens – perguntou ao Senhor K. a filhinha de sua hospedeira –, eles seriam, então, mais gentis com os peixinhos?

– Seguramente – ele disse. – Se os tubarões fossem homens, eles construiriam no mar imensas caixas para os peixinhos, com uma porção de alimentos dentro, tanto de origem vegetal quanto animal. Eles cuidariam para que as caixas tivessem sempre água fresca, e, sobretudo, tomariam todas as medidas sanitárias, quando, por exemplo, um peixinho machucasse a nadadeira, então seria imediatamente feito um curativo, para que não deixe os tubarões antes do tempo.

– Para que os peixinhos não ficassem tristes, existiria, de vez em quando, grandes festas na água; pois peixinhos contentes são mais saborosos que os tristonhos.

– Também haveria, naturalmente, escolas nessas grandes caixas. Nessas escolas, os peixinhos aprenderiam, como se nada nas gargantas dos tubarões. Eles precisariam, por exemplo, de Geografia, para que eles pudessem encontrar os grandes tubarões, que estivessem preguiçosamente encostados por aí. A coisa mais importante, naturalmente, seria a educação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados, que é maior e mais bonito, quando os peixinhos se sacrificam espontaneamente, e eles todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo, quando eles dissessem que providenciariam um belo futuro. Seria ensinado aos peixinhos, que esse futuro apenas estaria seguro, se eles aprendessem obedientemente. Os peixinhos deveriam ter cuidado principalmente com as inclinações vulgares, materialistas, egoístas e marxistas, e denunciar imediatamente, se algum deles revelasse tais inclinações.

– Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente conduziriam guerras uns contras os outros, para conquistar as caixas e os peixinhos estrangeiros. As guerras seriam levadas a cabo por seus próprios peixinhos. Eles ensinariam aos peixinhos que entre eles e os peixinhos de outros tubarões haveria uma diferença gigante. Os peixinhos, eles proclamariam, são conhecidamente mudos, mas eles silenciam em línguas bem diferentes e não poderiam entender uns aos outros. Para cada peixinho, que matasse na guerra um par de outros peixinhos, peixinhos inimigos, que silenciam em outras línguas; seria condecorado com a Ordem do Mar das Algas e conferido o título de Herói.

– Se os tubarões fossem homens, também haveria entre eles, naturalmente, uma arte. Haveria belas figuras, nas quais seriam representados os dentes dos tubarões em cores esplendorosas, e suas gargantas como finos jardins dos prazeres, nos quais se deixariam correr com toda pompa.

– O teatro no fundo do mar mostraria como peixinhos corajosamente heroicos nadariam para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que os peixinhos, sob suas notas, a frente da pequena orquestra, fluiriam sonhadoramente, envolvidos nos pensamentos mais agradáveis, para as gargantas dos tubarões.

– Também haveria uma religião, se os tubarões fossem homens. Eles ensinariam, que os peixinhos só começariam a viver, de fato, dentro das barrigas dos tubarões.

– Aliás, parariam com a história, como é hoje, de que todo peixinho é igual. Alguns deles se tornariam autoridades e seriam colocados sobre os outros. Os um pouco maiores poderiam até devorar os menores. Isso seria bem agradável aos tubarões, pois então eles poderiam receber com mais frequência petiscos mais gordos para devorar. E os maiores cargos ocupados pelos peixinhos iriam cuidar da ordem entre eles, tornando-se professores, oficiais e engenheiros de construção da caixa.

– Resumidamente, haveria então uma cultura no mar, se os tubarões fossem homens.


sexta-feira, outubro 29, 2010

sem título

quem vai curar essa dor?
quem vai secar essas lágrimas?
quem me fará companhia,
quando o sol terminar de se por?

quinta-feira, agosto 19, 2010

Diferente?




Estive pensando... Já me disseram isso muitas vezes, mas eu custo a acreditar. De fato, só queria ser um cara normal, porém alguma coisa aconteceu no caminho e eu sou um tanto diferente. Não sei se sou estranho. Nunca pude ver o mundo pelos olhos de outras pessoas, então creio que nunca poderei ter essa certeza. E acho também que isso não importa. Se sou diferente aos olhos de outro, só peço que aceite minha diferença, ou simplesmente me deixe em paz.

Algumas coisas são difíceis pra mim. Falar com as pessoas, por exemplo. Escolher o assunto certo, a coisa certa, o modo certo. É difícil olhar nos olhos. Não por mera timidez, mas em geral meus ouvidos bastam para acolher bem as palavras. Já quanto às respostas, não espere muito. Às vezes é necessário horas de reflexão para conseguir encontrar a palavra exata.

Não se incomodem com minha distância, tenho medo de furar seu olho caso tente apenas tocar seus cabelos. Não se incomodem com meu silêncio, ele pode ser a melhor coisa que eu tenho. Não preste atenção se eu não sorrir, isso não significa que eu estou triste ou que não goste de você.

Tenho muitos dias tristes. Alguns dias bons. Esses dias, tão raros, não os destrua.

Descobri que eu não entendo um monte de coisas. E que as pessoas se frustram comigo por isso. Não entendo certos olhares; na verdade, não entendo nenhum olhar. Por que você pisca assim tão rápido? Não entendo o que há com seu cabelo, por que você o toca tanto. Por que você diz algumas coisas e deseja outras. Na verdade, eu não entendo nem por que estamos juntos nessa mesma sala. Também não entendi por que você foi embora e não quer mais falar comigo...

Não entendo por que as pessoas querem fazer coisas. Para mim é estranho o fato de que muitas pessoas não conseguem ficar sozinhas, nem um pouquinho. Um pouquinho é sempre necessário. Mas estar sempre sozinho é doloroso.

Eu também gosto de fazer coisas. Mas elas são diferentes. Então as faço sozinho.

De tantas pessoas que vieram e foram embora, sem nenhuma explicação, começo a me perguntar o motivo pelo qual as pessoas vêm até mim. Não que eu não tenha qualidades. Tenho sim. Uma pequena coleção delas. E quem as descobrir, peço que cuide de cada uma e não as tente destruir por qualquer razão que seja.

Não entendo certos conceitos bastante comuns. Na verdade fico chocado com eles. Mas também não gosto de falar disso, por que é por demais estranho.

Mentir é difícil. Então prefiro calar-me.

Gosto que brinquem comigo. Não sou tão sério assim que não aceite brincadeiras. É lógico que há limites e eu gosto de deixá-los bem claros. Mas, por algum motivo, quase ninguém faz isso. Talvez porque eu não entenda as brincadeiras.

Tendo a ser bonzinho. Até gosto de ajudar. Mas não abuse.

Acho esse mundo complicado e estranho. Penso que se eu tivesse nascido em outra época, talvez, fosse melhor. Não sei porque eu tenho que torcer pra algum time de futebol, por exemplo. Em geral, futebol me irrita, especialmente pelo fato de ser uma coisa que as pessoas mais falam que praticam. Talvez seja assim com tudo, não sei.

Barulho também me irrita, apesar de eu quase nunca estar no silêncio. Luzes fortes ou fracas demais... A falta de sentido nas coisas...

Tenho problemas com coisas novas. Por isso todas as minhas roupas são velhas, eu acho. Novas situações, novos lugares e, claro, novas pessoas... tudo é sempre um desafio. Dessas coisas novas, gosto de tê-las todas planejadas.

Acho que não sou muito espontâneo. Algo sempre dá errado quando eu sou espontâneo.

Não entendi por que ela estava me cutucando. Nem por que a outra veio falar da placa-mãe do computador dela comigo! Isso sim é estranho!

Não gosto muito de máquinas, apesar de conviver com elas o tempo inteiro.

Não sei por que não é bom dizer que se gosta de uma pessoa. Nem por que elogios sinceros não são bem aceitos. Deveria ser o contrário.

Posso ser muito sensível às vezes. Sensível a coisas diferentes também.

Posso até ser carinhoso. Do meu próprio jeito.

Então, se me achar diferente, não se esqueça disso. Se sou diferente, por que deveria agir como outras pessoas? Seria incoerente...

terça-feira, julho 27, 2010

Clowns


Hoje cedo me deparei com uma coisa um tanto engraçada. Sério: o que fazia uma foto do Ozzy Osbourne na primeira página de um jornal de interior? A matéria falava sobre o lançamento de seu livro no Brasil, intitulado Eu sou Ozzy e publicado pela editora Benvira.

Muitas histórias cercam a figura de John Michael Osbourne. Da infância difícil às mordidas em morcegos, passando pela criação do heavy metal, a parceria com outros grandes artistas, até o reality show exibido na MTV, a transformação de John em Ozzy foi também um salto da vida comum para o plano da lenda... Mas o quanto terá custado tudo isso? Não seria essa vida uma tragédia casual, com um possível - apesar de improvável - final de conto de fadas, com o reconhecimento do herói culminando em um salto definitivo para o plano do mito?

Apesar do som pesado e da atmosfera sombria, o "Príncipe das Trevas" sempre se considerou um palhaço. Seu trabalho não era outro que não divertir as pessoas. E não se enganem os que consideram isso uma banalidade. A alegria é coisa rara. E séria.

Sem comparações em termos de estilo musical, talvez haja nas terras de cá uma figura semelhante. Do início dOs Mutantes até o seu maior reconhecimento, testificado pelo recente filme Loki, Arnaldo Baptista mostra uma capacidade de trabalho com diversos motivos, que surpreende ao mesclar a dor mais profunda com um toque de humor. A primeira faixa do disco Loki é uma prova disso. Passando pelo reconhecimento das causas de sua própria dor (Venho me apegando ao passado \ em ter você ao meu lado\ Não gosto do Alice Cooper\ Onde é que está meu Rock 'n' Roll?), e revelando-as sem o medo do ridículo. "Eu não estou nem aí pra morte, não estou nem aí pra sorte, eu quero mais é decolar toda manhã".

Arnaldo Baptista é, provavelmente, mais "malandro velho" do que "loki", ou o Loki mitológico, mas não deixa de assustar quando mostra uma verdade, um sentimento, escancarando-os e colocando-os próximo demais de nosso rosto, e colocando a orquestra do circo para encerrar a conversa. Essa é uma amostra da sensibilidade insuportável; o sentir o pulso de todos os tempos e, diante disso, compreender-se humano.

Para encerrar minha lista de clowns, trago uma figura talvez inesperada. Sua verdadeira história de vida já se encontra em um plano de semi-lenda, transcrita por vários e vários biógrafos (ou diria romancistas?). Mas o fato é que alguma operação mágica ocorreu quando Ronald passou a ser reconhecido como J. R. R. Tolkien.

Ser picado por uma aranha na infância, a participação na I Guerra Mundial, o intenso estudo de línguas estranhas como o islandês e o anglo-saxão, a morte de amigos próximos; a vida com um único amor, imortalizado na figura de Lúthien; a convivência com os não menos lendários C. S. Lewis, Charles Williams e Owen Barfield; a devoção ao catolicismo, o amor ao seu país; tudo isso são tentativas de entender, e talvez mitificar, o homem que escreveu a obra literária de maior repercussão no século XX, O Senhor dos Anéis. O mais estranho e perturbador no caso de J. R. R. Tolkien é que ele próprio era um criador de mitos.

Um dos elementos que mais impressionam em sua obra é a capacidade de misturar o cômico e o trágico, sem, contudo, lançar-se à ironia niilista, algo muito mais em moda no seu tempo. Por causa disso, Tolkien sempre correu o risco de ser afastado do mundo adulto. Os velhos não admitem humor.

Dessas três figuras, o que mais chama a atenção é a consciência de seu papel de artista como veículo de uma alegria que talvez nem eles mesmos sentissem. A comparação óbvia e quase clichê é a figura do palhaço triste. Mas existe a arte de dominar a própria tristeza e convertê-la em algo maior. Mas algo que não é só para si, para tornar a vida suportável. É a arte de transformar a própria dor na alegria do outro; sem exigir piedade. Sem morrer no escárnio e na ironia. Sem deixar aquele gosto amargo. É um impulso constante de reconstrução sobre os escombros... não me espanta que não envelheçam.

terça-feira, junho 29, 2010

Versos feitos de madrugada

Era bom quando...

amizade era só brincadeira,
a tristeza era só poesia,
a saudade era só palavra,
e a solidão inexistia.

sábado, maio 08, 2010

Uma parábola por Owen Barfield

Essa é uma breve parábola escrita por Owen Barfield no livro Poetic Diction, sobre as teorias empiristas e idealistas do conhecimento.

Era uma vez um automóvel muito grande chamado Universo. Embora não existisse ninguém que não estivesse a bordo, ninguém sabia como ele funcionava ou como operá-lo, e no correr do tempo dois problemas bem diferentes ocuparam a atenção de dois grupos diferentes de passageiros. O primeiro grupo ficou interessado em invisibilidades como combustão interna; mas o segundo grupo disse que a coisa a se fazer era empurrar e puxar as alavancas e descobrir por tentativa e erro o que acontecia. As palavras 'combustão interna', eles diziam, eram obviamente sem sentido, porque ninguém nunca havia empurrado ou puxado qualquer dessas coisas. Por um tempo ambos os grupos concordaram que o conhecimento de como aquilo funcionava e o conhecimento de como operar aquilo eram intimamente conectados um com o outro, mas, no fim, o segundo grupo começou a sustentar que o primeiro tipo de conhecimento era uma ilusão baseada no mal entendimento da linguagem. Empurrar, puxar e ver o que acontece, eles diziam, não eram meios para o conhecimento; eles eram conhecimento. Esse era um estranho tipo de carro, porque, depois que o segundo grupo tinha, com evidente e gratificante sucesso, tentado empurrar e puxar todas as alavancas grandes, eles começaram com algumas das menores, e o carro era construído de tal forma que quase todas elas, qualquer que fosse outro efeito que tivessem, agiam como aceleradores. Enquanto isso, o primeiro grupo segurava sua respiração e começava a pensar que seu tipo de conhecimento podia talvez ser útil após o desastre.


BARFIELD, Owen. Poetic Diction: a study in meaning. Middletown: Wesleyan University Press, 1973. p. 23-24

Se gostou, leia aqui a tradução do "Prefácio" por Howard Nemerov, a essa mesma edição publicada nos E.U.A.